“Eu venho da floresta…Com meu cantar de amor… Eu canto com alegria… A minha mãe que me mandou” Mestre Irineu

Xamanismo e Santo Daime: ontologia e simbolismo

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Apresentamos um diálogo visual entre o Santo Daime e os mitos que cercam as religiões antigas, estruturando o xamanismo milenar na religiosidade daimista, fazendo um paralelo com a arquetípica Jornada do Herói e as representações existentes na sociedade atual, partindo da proposição de que forças elementares “estão presentes em todas as sociedades, da mais simples às mais complexas, mas que em cada sociedade ganha contornos próprios” (GUERRIERO, 2012). Exploramos a ontologia e o arcabouço simbólico existente no Santo Daime, chegando ao poder mítico do Padrinho.

“O daime é luz. Tomou o daime, tomou um ser de luz… mas tem de ter merecimento, esse ser entra e mostra o que a pessoa é…”. Foi com essa definição simples que o padrinho certa vez pontuou a pessoalidade do daime. Há o contato com o divino por meio da bebida. O ser divino é o Juramidã, o Mestre Império, a entidade central do ritual identificado como o próprio espírito da bebida ingerida nas cerimônias.

São muitas as ideias de entidades espirituais envolvidas nos ritos. Ao analisar esse arcabouço mais profundamente, fica evidente a criatividade inerente à vida coletiva dos povos, que nos remete a ressignificações de hierofanias mais antigas, com seus símbolos rituais estruturadores de discursos diversos. Castro (2013), por exemplo, reinterpreta determinado ritual tupi-guarani, comparando o canibalismo escatológico desse povo com o canibalismo sociológico tupinambá, reconfigurando a ideia de entidades espirituais envolvidas no rito, propondo uma nova perspectiva a partir da discussão de totemismo de Lévi-Strauss. No Santo Daime, o que do Juramidã é realmente apropriado por aquele que o ingere?
A partir de uma perspectiva sociológica, pode-se analisar a dialética do sagrado na repetição de arquétipos, como escreve Eliade (1998), de modo que “uma hierofania realizada em determinado ‘momento histórico’ abarca, em termos de estrutura, uma hierofania mil anos mais antiga ou mais recente”. Em outras palavras, o eterno retorno presente no processo hierofânico permite uma compreensão das experiências contemporâneas delineadas por suas origens. O xamanismo presente no Santo Daime em Manaus hoje tem suas origens no milenar xamã amazônico, cuja função não diferia essencialmente do guerreiro amazônico, ambos vistos como condutores de perspectivas sociais e “agentes de comunicação transversal entre incomunicáveis” (CASTRO, 2013).

Para além da apreciação social e material, e do misticismo que pode cercar a figura daquele a quem os idosos beijam a mão e pedem a benção, existe todo um campo invisível de significados para o dirigente, o padrinho, o xamã. É Cemin (2000) quem define a figura do xamã: “Esse mundo é passível de ser contatado e operacionalizado, desde que exista aquele que sabe, “especialista no sagrado”, pessoa que conhece e pratica o trabalho espiritual. Há graduações nesse saber. Alguns sabem mais, logo têm mais força e poder. O mais poderoso, no campo do Daime, é Raimundo Irineu Serra, “Chefe Império Rei Juramidã”, e no âmbito da União do Vegetal, Mestre Gabriel, cuja identidade mística é identificada como o “Rei Huascar”, do “Império Inca” e com o “Rei Salomão”, ambos considerados ayahuasqueiros ancestrais e eternos, visto tratarem-se de identidades espirituais. Estas entidades são o símbolo, por excelência, do “verdadeiramente real”, o astral ou “mundo divinal”. Nessa qualidade, os Mestres fundadores transmitem, delegam, ordenam, atribuem poderes de mando e de cura aos seus discípulos.” Assim, o padrinho é condutor e agente de comunicação transcendental na história da comunidade daimista. Pode-se ver a comunidade como um coletivo imanente, reabsorvendo, ao longo de todo o calendário anual de ritos, os focos emergentes daquela comunicação centrada no padrinho, implicados pelo vasto tecido social amazônico.

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